ago 12 2010

Final da Caravana

Elena

Hoje é o último post do Blog, estou diante de uma página em branco pensando em muitas coisas e num jeito de colocá-las em seus lugares, sem dar extrema importância ou desmerecer cada uma delas.

A Caravana terminou em Caruaru, na cidade perfeita para os dois cenários: um Circo cheio ou vazio.

O Circo só lotou no último dia, na última sessão, o que nos causou uma sensação estranha, de um lado um Circo vazio não parecia combinar com uma cidade como Caruaru, de outro Caruaru não poderia ser melhor para abrigar um certo vazio, sendo uma cidade tão cheia de carinho, vida e Cultura.

Depois de reclamar por causa da falta de público e passar o sábado meio triste, terminei a Caravana agradecida por não ter tido um final tão perfeito assim justamente em Caruaru, afinal, desde o começo sabíamos que a própria Caravana era mesmo essa página em branco e que construiríamos a odisséia pouco a pouco, em garranchos, sem pontuação, misturando tintas e cores, assim como é o nosso estilo.

Tivemos uma grande equipe, que suportou, conviveu, divertiu e ultrapassou obstáculos no melhor estilo “parcour” e, quando digo equipe, quero dizer artistas, produtor, sonoplasta-iluminador, eletricista, capataz, caminhoneiros (e acompanhante).

Todos eles decidiram seguir conosco nessa história imprevisível, todos eles assumiram o risco e fizeram a Caravana, mesmo achando uma idéia “absurda” e corajosa demais.

À toda equipe nosso sincero reconhecimento, sabemos que, sem o comprometimento deles, muito provavelmente o saldo seria negativo.

À Caruaru, obrigada por emprestar sua página em branco e nos ajudar a transformar o fim da Caravana, pincelando a última página com risos, bonequinhos de barro, feiras, amigos e arte…porque é assim que a vida deve ser, em todo o lugar, para todo mundo!

O poema abaixo estava dentro do museu do Vitalino, achei lindo.

De Vitalino as mãos eram mãos santas
Que modelaram em barro os Nordestinos
E transportaram a dor e os destinos
Para os bonecos, tantas vezes, tantas.

Bonecos mudos, quantas vezes, quantas
Minha alma cega por meus olhos viu
A tua dor meu coração sentiu
No canto triste que inda hoje cantas

Soprou-se ávida num boneco mudo
Que sem falar, assim, dizia tudo
Dos nordestinos, dos destinos seus

Advertência dos que nascem pobres
Pelas mãos rudes que ficaram nobres
Abençoadas pelas mãos de Deus

(autor desconhecido)


ago 5 2010

Caruarú

Elena

Agora estamos em Caruarú, cidade receptiva, linda, com gente disposta, terreno limpo e bem situado.

Caruarú preserva sua identidade sem deixar de crescer, com feiras de artesanato, museu e a vila da festa junina, é uma cidade inteligente, que sabe que o turismo é importante e valoriza seus visitantes. Ao contrário de Feira de Santana (ou Santanás?) tudo foi fácil, o hotel facilitou valores, nos acolheu mesmo sem reserva (houve uma confusão de datas) e os restaurantes são bons e baratos.

Mais uma vez lembro da história da montanha russa e fico feliz porque estamos terminando essa caravana em uma de suas subidas.

Amanhã tem espetáculo e tudo indica que será especial, com uma cidade assim, não tem problema que resista!


ago 5 2010

Feira de Santana

Elena

Cidade difícil em quase todos os sentidos, desde o hotel, os restaurantes, a lavanderia, o terreno, a prefeitura…

Foi tudo tão terrível que fica impossível escrever esse texto no Blog sem ser desagradável, eu estou sofrendo, acreditem!

Não conseguimos apoio nenhum da prefeitura, ficamos em um terreno escondido e perigoso, sem luz.

Um dos “importantes” da prefeitura ainda nos disse que ele “sabia que o Circo estava lá só pra ganhar dinheiro, que a Cultura era um pretexto, no fundo a gente só queria ganhar dinheiro”.

Enfim, como disse na primeira frase, foi difícil em quase todos os sentidos, e esse quase é pelo público e pelos circenses que a gente conheceu.

Embora tenhamos tido pouco público, como sempre, as pessoas se emocionam e a gente sente que está ajudando, pouco a pouco, a mudar a imagem do Circo em alguns lugares.

Saímos de Feira com medo, afinal, são 12 horas de estrada ruim, com buracos imensos (ué…não é pra isso que serve o IPVA?) e muitos assaltos. Já estava fazendo Jet bronze porque dizem que os ladrões nos deixam pelados no meio do mato!

Mas a viagem foi boa, estamos bem, vestidos ainda.

No fim, chegamos a uma conclusão, o melhor de Feira de Santana, como diz o Gallo, é a estrada pra Caruaru!


jul 30 2010

Jequié

Elena

Uma cidade cercada de montanhas por todos os lados.

Ficamos em um terreno meio escondido, recebíamos visita de crianças quase todos os dias. As crianças ficam sozinhas praticamente o dia inteiro porque os pais saem para trabalhar e não tem com quem deixá-las.

Além disso, conforme escutamos dos próprios moradores de Jequié, desde que a bolsa família foi implantada no Brasil, as mulheres tem filhos e mais filhos, cada um “custa” 40 reais a mais para a família, que insiste em achar um bom negócio!

São meninos e meninas de 4 a 12 anos que andam em bandos, crianças espertas, alegres que por enquanto só diferem das que foram “bem nascidas” por causa do poder que tem em se surpreender e se divertir com pequenas coisas.

Acho que as montanhas são apenas uma forma que a cidade encontrou de guardar essas crianças para que elas não se percam da cidade.

O Circo foi um refúgio divertido para elas, que encontraram na Vera, no Irineu e no Chumbão, pais postiços que davam carinho, orientação e como não poderia faltar, o lanche da tarde, com pão, bolo, leite e balas…êh vidão!!

Os espetáculos lotaram, inclusive com presenças ilustres do lado de fora, como o travesti que chamava de “gostoso” e “delícia” todos os homens da companhia.

Também tivemos um palhaço meio bêbado meio louco, que por incrível que pareça “alguém” contratou para distribuir panfletos do Circo pela cidade.

As pessoas inventavam de tudo pra conseguir entrar no Show sem pagar, tivemos até um falso segurança que colocou seu melhor terno e ficou vagando pelo circo, fingindo vigiar o movimento para de repente adentrar o recinto…só ele não percebeu que a gente percebeu, mas deixou entrar como reconhecimento pela sua cara de pau e criatividade!!

A semana passou voando e agora estamos em Feira de Santana, passando por problemas burocráticos e muita má vontade…mas Graças a Deus, essa cidade não tem montanhas e já vislumbramos o caminho para Caruaru…e essa é outra história que conto mais tarde porque o povo de Feira não tem nada a ver com isso.

É isso, já estamos no começo do fim.
Saudades de Sampa.


jul 20 2010

Itabuna – Sucesso total!

Elena

O Circo ficou cheio, muitas pessoas não conseguiram entrar nos 3 dias, nas 5 sessões.
Mais do que qualquer textinho bonito, colocarei aqui as fotos…que falam por si só.
Obrigada Itabuna!!!


jul 20 2010

Itabuna

Elena

Itabuna tem um rio

Um rio que corta a cidade e o meu coração.
Que tem pássaros brancos que lembram Garças
As Garças pousam nas pedras que o Rio abraça,
Muitas pedras formam lagos e pequenas bacias,
As pedras lembram corredeiras, que dão nome ao rio
E o rio então nasceu…Cachoeira.

O lado sombrio do rio é o reflexo das pessoas
É o dejeto, o mau trato
O lado sombrio do rio já tingiu os pássaros de preto
Já secou o bambuzal e esverdeou a cachoeira

Hoje o rio vive em uma foto
Na foto as pessoas nadam, brincam, trabalham, namoram
Na foto as pessoas pensam, sentem, olham o por do sol… à beira do rio.

O rio que passa na cidade hoje é esgoto, o mais lindo canal de esgoto que eu já vi.

Itabuna tem dança

E pessoas que passam pela cidade prontas pra te ganhar
Que vivem a realidade do rio e lembram da foto com saudade
Que te recebem com entusiasmo e te conduzem pela mão

Generosas, bailarinos alegres, capazes de transformar esgoto em dança pura
E que dançam a dança com resignação
Como é inevitável sentir o cheiro do rio é impossível escapar do povo
É impossível se sentir abandonado por eles… um povo abandonado

As pessoas ainda vivem fora da foto
Ainda podemos senti-las
Elas são como foram e esperam se encontrar um dia com o rio
O rio daquela foto antiga em que brincavam, nadavam e trabalhavam

Eu também espero me encontrar com ele, assim como espero do fundo da minha ingenuidade de criança, da criança que acredita em mágica (ou milagres), me encontrar um dia com os rios Tietê e Pinheiros… pais do rio Cachoeira.

Por enquanto me contento com a beleza palpável das pessoas daqui, que tem o poder de amenizar o cheiro do rio.

Obrigada a Vital Fitness, Academia de Dança…. aos professores de dança de Salão que nos deram uma festa incrível e, claro, à nossa queridíssima Ellen!!


jul 6 2010

Indo embora…

Elena

Fizemos 3 maravilhosos dias de show. Baiano é gente boa, procura novidade, busca alegria…
Tá tudo errado, mas tá tudo certo! Essa é a frase desse povo que insiste em olhar sempre o lado bom.

Prova disso, pra que eu não perca o costume de fazer uma criticazinha, é a fila absurda dos bancos, vide foto abaixo.

Desculpem, mas mostrar essa foto foi irresistível, na verdade é uma forma de protesto, por ver um povo que tem essa felicidade tão básica sofrer esperando horas e horas na fila, com uma resignação tão conformada (porque a espera pede redundância) que faz com que tudo aconteça de uma forma tranqüila, só paulista queima o cérebro e o coração quando vê suas horas sendo desperdiçadas.

Fizemos amigos em todo canto, na padaria, na aula de yoga (obrigada, Carlos, Cil e Ernesto), na academia – Edi Fitness, nos restaurantes (beijos pra Suely e a Rainha Bete) e na livraria.

Lotamos o Circo em praticamente todos os dias, foi uma felicidade só!
Alguma coisa me dizia que seria diferente na Bahia!

Conhecemos pessoas interessantes, que se emocionam com arte e são simples como toda arte deveria ser. Gente que te convida pra fazer não sei o quê não importa onde… que te dá o que não tem e não sabe que pra gente já é muito.

Enfim, vivemos períodos de sucesso, fomos parados na rua pra receber abraços agradecidos de quem viu o Espetáculo e sentimos de novo aquela sensação de dever cumprido, de quem sabe que está no lugar certo, na hora certa.

Vamos embora muito agradecidos pela hospitalidade e carinho dos Conquistenses que buscaram o Circo com uma generosidade tamanha que só caberia num espaço sem portas como a Lona do Vox.

Algumas fotinhos pra vocês:


jun 30 2010

Para os Conquistenses

Elena

 Vocês pediram e aí estão todas as informações. Os espetáculos acontecerão dias 2, 3 e 4. Estamos montados na r. Bartolomeu de Gusmão, perto do Hospital Samur. Estou escrevendo tudo porque talvez seja difícil ler as infomações no efolder.

Preço R$ 8,00 e R$ 4,00. Sexta às 20h30, sábado às 18h00 e 21h00 e domingo às 17h00 e 20h00.

Espero que meu esforço tenha valido a pena e que o Circo encha (demorei umas 3 horas pra conseguir colocar esses folderzinhos aí, afinal, já tenho 34 e não sou obrigada a mexer no Blog com desenvoltura, sou da época do mimeógrafo…alguém lembra?).

Tenho que ir… estão me chamando no Bipe, parece que o bonde vai passar em meia hora e não posso perder o último episódio do “Balança mas não cai” na minha tv PXB que só pega com Bombril na antena.


jun 28 2010

Festa de São João

Elena

Ontem vimos uma quadrilha!!! Procurei pela cidade inteira durante uns 4 dias e não dava sorte, sempre que chegava a quadrilha já tinha se paresentado, ou o lugar era outro…parecia a maldição de São João. Corria o risco de passar meus dias aqui sem ter visto uma quadrilha. Mas até que a sorte me sorriu e tivemos a oportunidade de ver essa dança cheia de energia dos baianos.

Aqui a festa junina é maior que o Natal. As pessoas compram fogueiras já prontas, em cada esquina tem um vendedor de fogueiras para colocar em frente as casas e queimar toda a rede elétrica da cidade rsrs.

Fogueiras nas ruas

Vendedor de fogueira

 Amanhã começaremos a divulgação, o circo já está sendo montado hoje, desta vez tivemos um recorde, o Anderson chamou 15 homens para a montagem e não apareceu nenhum! Não dá pra competir com Copa do Mundo!

Ele teve que sair pelas ruas procurando gente e agora está com 8 pessoas, se é que não perdeu ninguém nesse meio tempo.

É isso, hoje estou bem direta e o único jeito de terminar esse post é – Tchau! Obrigada por nos acompanhar!


jun 22 2010

Vitória da Conquista

Elena

Você já foi à Bahia nega, não? Então vá!!

Lá tem… padaria que não tem pão…é tem um horário que o pão acaba e é ridículo ir pra outra padaria só porque “você não pode esperar uma hora e meia? Já, já ta pronto meu rei…”

Tem também aquela do vendedor (e não é piada) que tinha uma barraquinha de fogos de artifício na calçada, quer dizer, de bombinhas para São João.

Aí o sujeito (no caso, o Gallo mesmo) pergunta “quanto custa?” e o vendedor responde com uma disposição de fazer inveja a qualquer velhinha agonizante “mnsj centavos”, o sujeito “quanto?”, o vendedor “msnd centavos”, o sujeito “como?” e o vendedor com uma preguiça sem tamanho geme “…pó levá!”.
Custou mais barato pra ele dar a bombinha do que ficar repetindo.

Tem mais a do assaltante que esperando pacientemente uma vítima encontrou com o Anderson, nosso Capataz, um negão alto e forte que voltava de uma festa na praça principal. O projeto de assaltante olhou pra ele e disse “já que não tem outro vai cê merrmo…passa o celulá” e, enquanto falava isso se perguntava onde diabos estava o canivete que ele tinha separado pro assalto? Na mesma hora o Anderson deu um tapa na orelha dele derrubando-o no chão e fazendo correr seu parceiro que tava ali só olhando o movimento.

O povo não tem jeito pro capitalismo, pro estresse, nem pra roubar!

Assistimos o jogo do Brasil em um sebo, com alguns personagens da cidade que gostam de literatura, psicologia, música e… cachaça.

Em 5 minutos fomos convidados por um amigo a passar o feriado de São João na casa de seu amigo porque (é óbvio) que a casa é de todo mundo (só seu amigo não sabia disso).

Ele contou que no São João as casas ficam abertas com comidas típicas para todos e é tradição oferecer comida pra qualquer um que passa…não é demais?

Ficamos de pensar, mas acho que não vai dar…a casa dele fica a 500km de Vitória da Conquista… e já ta dando preguiça de baiano.

É, não tem jeito, eu gosto dos baianos!